No Dia Mundial da Hipertensão, o Dr. Aldégyo Caldeira explica por que a pressão alta não deve ser ignorada, mesmo quando não causa sintomas
A hipertensão arterial segue entre os principais problemas de saúde pública no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1,4 bilhão de adultos entre 30 e 79 anos viviam com hipertensão em 2024, e aproximadamente 44% nem sabiam que tinham a condição. No Brasil, dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que a hipertensão atinge cerca de 27,9% da população.
Neste 17 de maio, Dia Mundial da Hipertensão, a data reforça a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do acompanhamento adequado. Para falar sobre o tema, convidamos o cardiologista Dr. Aldégyo Caldeira aqui do Hospital São Judas Tadeu (Divinópolis,MG), que explica por que a pressão alta merece atenção mesmo quando parece silenciosa e como evitar complicações graves, como o AVC.
UMA DOENÇA SILENCIOSA, MAS PERIGOSA
Logo no início da conversa, o Dr. Aldégyo explica de forma direta o que é a hipertensão arterial: trata-se da elevação da pressão do sangue dentro das artérias acima dos níveis considerados ideais. Pode parecer algo simples à primeira vista, mas o problema está justamente no fato de que, muitas vezes, ela evolui sem sintomas.
“É a elevação da pressão do sangue dentro das artérias além de limites estabelecidos como ideais. Merece atenção por promover, às vezes silenciosamente, doenças graves nos rins, coração e cérebro, se não tratada.”
Esse é um dos pontos mais importantes quando falamos em pressão alta. A ausência de sintomas não significa ausência de risco. Pelo contrário. Muitas pessoas convivem com a hipertensão por anos sem perceber, enquanto a doença avança e aumenta o risco de complicações importantes. A OMS destaca que a hipertensão é um dos principais fatores de risco para AVC, infarto, insuficiência cardíaca e doença renal.
NÃO É PRECISO ESPERAR UMA CRISE PARA PROCURAR AJUDA
Um erro muito comum, segundo o médico, é acreditar que só existe motivo para preocupação quando a pressão sobe muito ou quando aparece uma crise evidente. Ele alerta que esse pensamento está errado, porque a hipertensão pode causar danos silenciosos e irreversíveis ao longo do tempo.
“Está errado, pois a pressão alta vai causando mal ao organismo silenciosamente, e se não tratada, pode causar danos irreversíveis.”
Por isso, o acompanhamento não deve começar apenas quando os sintomas aparecem. O ideal é incluir a verificação da pressão arterial na rotina de cuidados com a saúde. O Dr. Aldégyo chama atenção para um ponto importante: essa atenção deve começar cedo.
“As medidas da pressão arterial devem começar na infância, pois pode acometer também as crianças.”
QUEM PRECISA FICAR MAIS ATENTO
Embora a hipertensão seja mais comum com o envelhecimento, ela não é um problema exclusivo da terceira idade. De acordo com o cardiologista, pessoas mais jovens também podem desenvolver pressão alta, inclusive na infância. Ou seja, aquela ideia de que hipertensão é “coisa de idoso” é uma compreensão equivocada que pode atrasar o diagnóstico.
Entre os fatores de risco mais importantes, ele destaca histórico familiar, excesso de peso, sedentarismo, consumo excessivo de sal, álcool em excesso, sono insuficiente, estresse e até fatores ambientais, como poluição do ar e poluição sonora. Além disso, a hipertensão também pode estar relacionada a doenças renais, diabetes, gravidez, alterações hormonais, uso de alguns medicamentos e uso de drogas ilícitas.
QUANDO O CORPO COMEÇA A DAR SINAIS
Mesmo sendo uma condição frequentemente silenciosa, há momentos em que o corpo começa a emitir alertas. O Dr. Aldégyo explica que é importante procurar avaliação quando as medidas da pressão arterial estiverem persistentemente elevadas, especialmente acima de 14 por 9, mesmo que a pessoa esteja sem sintomas.
Quando há sinais clínicos, eles podem incluir dor de cabeça, principalmente na nuca, cansaço, falta de ar e dor no peito. Em quadros mais graves, os sintomas podem evoluir para confusão mental, náuseas, vômitos, desorientação, alterações visuais, dor intensa na cabeça e até dor nas costas.
Nessas situações, o médico faz um alerta claro: não é hora de minimizar o que está acontecendo.
“O que não se deve fazer é não dar importância ao que está sentindo. Não é recomendado confiar em remédios caseiros ou chás nesta situação.”
COMO A HIPERTENSÃO PODE LEVAR A AVC E OUTRAS COMPLICAÇÕES
Ao explicar a relação entre hipertensão e complicações graves, o Dr. Aldégyo destaca que o excesso de pressão sobre as paredes das artérias provoca lesões progressivas.
“Devido ao excesso de pressão sobre as paredes das artérias, isto leva com o tempo a um dano nas paredes destes vasos e de órgãos nobres, irrigados por estes vasos, como coração, cérebro, rins e também de grandes vasos, como o maior deles, a aorta.”
Esse desgaste ajuda a entender por que a hipertensão está tão ligada a quadros como AVC, infarto, insuficiência cardíaca e problemas renais. Não se trata apenas de um número alto no aparelho. Trata-se de uma condição que pode comprometer, de forma séria, todo o organismo.
O QUE MAIS ATRAPALHA O CONTROLE DA PRESSÃO ALTA
Durante a entrevista, o médico também comenta os erros mais comuns no dia a dia de quem já recebeu o diagnóstico. Entre eles, estão achar que pressão alta não faz mal, interromper o tratamento ao perceber melhora e não seguir as orientações médicas relacionadas à alimentação, ao estilo de vida e ao uso correto dos medicamentos.
Para ele, abandonar o tratamento é uma das atitudes mais prejudiciais.
“O mais importante é não parar com medicação por conta própria.”
Além disso, automedicação, uso irregular da medicação e confiança excessiva em receitas caseiras também atrapalham bastante o controle da hipertensão.
O QUE REALMENTE AJUDA A PREVENIR COMPLICAÇÕES
Se por um lado há erros que pioram o quadro, por outro existem medidas práticas que ajudam muito no controle da pressão e na prevenção de problemas futuros. O Dr. Aldégyo reforça a importância de manter o peso adequado, ter uma alimentação saudável, reduzir o consumo de sal e álcool, praticar atividade física com regularidade, controlar o estresse e buscar boas noites de sono.
Ele também destaca que a atividade física precisa entrar de verdade na rotina.
“Manter atividade física regular, recomendado 300 minutos por semana.”
São orientações simples na teoria, mas que fazem grande diferença quando colocadas em prática de forma contínua.
A PRESSÃO ALTA DE VERDADE E A PRESSÃO QUE SOBE POR NERVOSISMO
Outro ponto interessante abordado pelo médico é a diferença entre um quadro de hipertensão arterial e situações em que a pressão sobe temporariamente por nervosismo ou ansiedade. Ele cita como exemplo a chamada hipertensão do jaleco branco, quando o paciente apresenta pressão elevada em contextos de estresse, como consulta médica, ambiente hospitalar ou até na renovação da carteira de habilitação.
“Passado estes momentos a pressão volta ao normal. O exame de MAPA é utilizado para diagnosticar esta situação.”
Ou seja, nem toda pressão alta isolada fecha um diagnóstico, mas isso também não significa que o caso deva ser ignorado. Avaliar corretamente faz toda a diferença.
COMO MEDIR A PRESSÃO EM CASA DO JEITO CERTO
Para quem acompanha a pressão em casa, o Dr. Aldégyo reforça alguns cuidados importantes. Ele orienta o uso de aparelhos digitais com selo do Inmetro e recomenda seguir corretamente o manual de uso, principalmente no caso dos aparelhos de punho.
Antes de medir, o ideal é ficar sentado por cerca de 10 minutos, em ambiente tranquilo, com as pernas apoiadas no chão e sem cruzá-las. Também é importante evitar medir a pressão logo após refeições, exercícios, situações de estresse ou com a bexiga cheia. Outro detalhe que faz diferença é não contrair a musculatura do braço durante a medição.
Ele também faz uma observação importante para quem mede a pressão, muitas vezes por ansiedade: aferir repetidamente ao longo do dia pode gerar mais estresse e atrapalhar ainda mais a interpretação.
QUANDO PROCURAR O PRONTO ATENDIMENTO E QUANDO MARCAR CONSULTA
Segundo o especialista, a busca por atendimento imediato deve acontecer quando a pressão estiver muito elevada e vier acompanhada de sintomas como falta de ar, desorientação, vômitos, dor no peito, dor intensa na cabeça ou alterações visuais.
Ele destaca como situação de alerta importante quando a pressão mínima estiver acima de 12 e a máxima acima de 18, especialmente se houver sintomas associados. Já em casos de pressão elevada sem sinais de urgência, a avaliação ambulatorial com cardiologista é o caminho mais indicado, sobretudo em quem tem histórico familiar ou outros fatores de risco.
Além disso, ele reforça uma recomendação simples e valiosa: mesmo sem sintomas, o ideal é medir a pressão arterial pelo menos uma vez ao ano.
COMO O HOSPITAL SÃO JUDAS TADEU ATUA NESSES CASOS
No Hospital São Judas Tadeu, de acordo com o Dr. Aldégyo, o atendimento ao paciente com suspeita de hipertensão ou pressão descontrolada começa já no primeiro contato, com aferição da pressão arterial, avaliação dos sintomas e levantamento da história clínica.
A partir dessa análise, podem ser solicitados exames laboratoriais, eletrocardiograma e, quando necessário, exames complementares como ecocardiograma e MAPA. Além disso, o paciente recebe orientações relacionadas ao tratamento e aos fatores que contribuem para a hipertensão.
O médico também destaca a estrutura da instituição nesse cuidado.
“Pronto atendimento bem estruturado, seguindo protocolos para tratamento da hipertensão arterial em suas várias apresentações, ambulatório para acompanhamento dos pacientes, laboratório, corpo clínico, de enfermagem e colaboradores voltados para tratamento de excelência.”
O RECADO FINAL DO ESPECIALISTA
Ao encerrar a entrevista, o Dr. Aldégyo deixa um alerta importante para quem ainda enxerga a pressão alta como algo “normal”, “da idade” ou sem gravidade.
“A pressão alta, por ser muitas vezes silenciosa, pode provocar danos irreversíveis à saúde e muito sofrimento, como sessões de hemodiálise, falta de ar devido à insuficiência cardíaca e outras consequências danosas.”
Ele lembra ainda que as consequências da hipertensão não tratada afetam não só o paciente, mas também a família, com impacto emocional, financeiro e na qualidade de vida.
No fim das contas, a mensagem deste Dia Mundial da Hipertensão é clara: cuidar da pressão arterial não deve começar só quando o sintoma aparece. Informação, prevenção, acompanhamento e tratamento adequado continuam sendo as melhores formas de evitar complicações graves como o AVC.